13.8.06

Magic is everywhere...

Suzy Banyon decided to perfect her ballet studies in the most famous school of dance in Europe. She chose the celebrated academy of Freeborge. One day, at nine in the morning, she left Kennedy airport, New York, and arrived in Germany at 10:40 p.m. local time.

O narrador nunca mais é ouvido no restante do filme. Estas poucas palavras são o suficiente para nos remeter a um mundo que só pode existir em um conto de fadas. Dario Argento fará questão de reforçar esta idéia ao longo do filme. A trilha sonora não se decide entre o hipnótico e o ensurdecedor. Os créditos são de uma simplicidade quase franciscana: fundo preto e fontes brancas. Nada que chame muita atenção. O filme nem mesmo começou de verdade e o espectador já está desnorteado.

Os créditos acabam. Estamos no aeroporto, acompanhando a chegada de Suzy Banion. As cores são estouradas. O vermelho é vermelho demais. Muito mais do que deveria ser. O mesmo vale para o verde. Nada soa natural. Nada soa seguro. Neste universo, portas automáticas são ameaçadoras. Fontes de água e bueiros também. A heroína entra em um táxi. Uma chuva ameaçadora castiga o lado de fora do aeroporto. Um aeroporto vazio. Mais estranheza.

O taxista que não quer conversa também representa uma ameaça. Suzy está chegando em sua escola de dança. No caminho, uma floresta escura e ameaçadora. Dessas mesmo. Dessas que parecem saídas de um conto de fadas. As sombras parecem possuir um significado. Uma delas pode ser vista durante o clarão de um relâmpago e chama mais atenção que as outras. Um aviso de coisas que estão por vir. A trilha do Goblin começa a nos alertar/amedrontar/amaldiçoar. “Witch!” é gritado e sussurrado dezenas de vezes.

Estamos de frente para a academia de dança. A arquitetura do prédio parece toda errada. Nada seria tão estranho assim. Suzy desce do táxi. Uma outra garota está saindo do prédio. Ela grita algo para alguém que está do lado de dentro e sai correndo. Trovões cobre sua voz. Suzy é impedida de entrar em sua futura escola e volta para o táxi para procurar um lugar em que possa passar a noite. Ao atravessar a floresta mais uma vez, vemos a garota que saiu da escola em uma corrida ensandecida entre as árvores e no meio daquela chuva que não pára de cair.Magicamente, o foco deixa de ser Suzy e passa a ser a moça que saiu correndo da escola. Ela encontra abrigo na casa de uma amiga. A arquitetura aqui também está toda errada. É ela que nos avisa que ali a fugitiva da escola não encontrará sossego. Assim que é deixada a sós no seu quarto ela é atacada. Um braço monstruoso arrebenta seu rosto contra a janela. A trilha sonora volta a agredir nossos ouvidos. Gemidos, gritos e barulho. Uma faca começa a penetrar a carne da vítima. Violência nunca teve tanto peso. Toda a estilização não tira a dor que aquelas estocadas estão provocando. Nada de sorrisos sádicos na platéia, pode ter certeza. A lâmina rompe a pele e expõe a carne pulsante que se encontra sobre ela.

Um fio elétrico é amarrado ao redor de seu pescoço. Seu corpo já quase sem vida atravessa uma clarabóia composta por pedaços de vidro de cores que agridem os olhos de qualquer um. Seu corpo inerte e sem vida fica suspenso sobre o hall de entrada do prédio. As gotas de sangue que pingam no chão também estão nos avisando de algo, uma mancha Rorschach pintada em vermelho. Vidro por toda parte. A amiga que a recebeu jaz morta logo abaixo. Pedaços de vidro atravessando todo o seu corpo.Acabamos de adentrar o universo de “Suspiria”, o filme mais conhecido do maestro italiano. São apenas quatorze minutos e treze segundos. Minutos que certamente ficaram cravados na memória de qualquer pessoa que minimamente se importa com o cinema. Nesta seqüência de abertura, o diretor habilmente planta todas as informações que serão necessárias para o desenvolvimento da trama. A atmosfera tensa e pesada que qualquer filme de horror que se preze deve ter já foi mais do que criada. Além disto, trata-se de um verdadeiro tratado maneirista. A forma importando mais do que tudo. No cinema de Argento, os zooms sempre serão os mais belíssimos, os cortes sempre virão no momento exato, os movimentos de câmera sempre serão fluidos e impressionantes. Mas mesmo com todo o seu requinte formal, sua câmera sempre possui um propósito oculto. Nenhum de seus filmes podem ser resumidos a meros sustos e choques. Sua câmera questiona o próprio cinema. A montagem serve para construir ou reconstruir a realidade. É ela que dirige o olhar do espectador. Só através dela conseguimos entender a trama de “Suspiria” e de quase todos os seus outros filmes. Legado de seu passado como crítico de cinema, Argento questiona também sua própria obra e o lugar ele deve ter no cinema. Seus filmes parecem ser sobre filmes. Mais nada. E ainda estamos na seqüência que abre a fita.Gênios não precisam de muito mais. Apenas pouco mais de quatorze minutos. Só isto para garantir seu lugar na história do cinema.


2 Comments:

Blogger isa. said...

é isso aí mesmo. uma maravilha sem tamanho.

6:51 PM  
Blogger guilherme said...

O filme é uma maravilha mesmo. Já este texto... Nunca mais vou tento escrever sobre um filme que eu adoro.

2:46 AM  

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isa tem 25 . fala pouco . mineira . tem em alta consideração adam green, lou reed, tadanobu asano , café preto e a atual novela das oito - que tá pegando fogo!

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guilherme tem 24 . quase-gaúcho . se amarra em mocinhas em apuros e muito sangue . aplaude dario argento, lucio fulci, samuel fuller, love, lou reed & grant morrison.

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