Comunhão.
Em um dos pontos-chave do novo filme de M. Nigh Shyamalan, Cleveland Heep (Paul Giamatti) descobre que só vai ouvir de uma senhora coreana a história de ninar que traz todas as soluções para o enredo do filme se ela sentir uma certa inocência vindo de seu ouvinte. Heep, então, diante da velha, trata de assumir um ar despreocupado em suas feições enquanto come bolacha, bebe leite sem se preocupar com a sujeira que seu bigode está se tornando, deita-se no sofá desta mulher que mal conhece com olhos suplicates por uma boa história.
É esta a atitude que o cineasta espera de seus espectadores. Este é um conto de fadas para adultos. Mas para apreciá-los é preciso uma certa capacidade de se olhar o mundo com olhos de criança. É preciso querer se encantar.
Como todo conto de fadas, "A Dama na Água" está repleto de elementos que muita gente séria e sem-graça vai chamar de ridículo. O quê?! Uma ninfa na água?! Vai me conta outra... Lobos feitos de grama? Águias gigantes que transportam pessoas em suas patas? Pff...
Vejam bem. A historinha é mais ou menos a seguinte: existem estes seres que vivem na água que sempre guiaram os humanos em suas grandes decisões. São capazes de iluminar e inspirar certas pessoas especia
is. Em um condomínio de apartamentos, Heep encontra um destes seres. Uma narf (Bryce Dallas Howard). Ela está lá para encontrar um destes "receptáculos" e inspirá-lo a dar continuidade ao livro que está escrevendo e que será responsável por uma grande mudança no mundo. É claro que existem também os vilões que querem impedí-la de alcançar seu objetivo. Sim, continuo sem saber escrever sinopses decentes.
Engraçado o quanto a história parece épica ao contá-la dessa forma. Certamente, é o filme mais ambicioso do diretor, mas está muito longe de ser algo épico. Inteiramente centrado no condomínio e tem apenas os seus habitantes como personagens de sua história de ninar. Enquanto em seus filmes anteriores ele nos apresentava um universo real e tentava mostra o que de fantástico pode existir à nossa volta sem percebermos, aqui Shyamalan toma um ambiente ultra- realista e aos poucos vai deixando a fantasia tomar conta. No terceiro ato do filme, estamos diante de um mundo quase que inteiramente fantástico, mesmo que ainda ancorado em um condomínio.
Aqueles arquétipos extremamente mundanos que habitam os apartamentos vão deixando-se tomar pelo conto de fadas que está se desenrolando no quintal deles. O público também deveria estar fazendo o mesmo. Para ajudar na transição, Shyamalan colocou um crítico de cinema (Bob Balaban) na história. Tá. Talvez o personagem não fosse tão odiado se ele tivesse uma outra profissão. Mas o cineasta é inteligente demais para tê-lo criado apenas como birra pelas resenhas negativas que seu último filme havia recebido nos EUA. Não. Ele está para representar o que cada um de nós tem de cínico dentro de si. E quando o personagem for finalmente morto, o cínico de nós também deverá ter ido embora. É um salto de fé que o filme exige e, com este personagem, Shyamalan tenta ajudar seu público, da maneira que pode, a conseguir dar o tal pulo.
Além de ser tematicamente mais ambicioso que seus filmes anteriores, além de ter sido capaz de criar todo este universo de faz-de-conta, o cineasta se encontra no auge da forma. Ele consegue filmar o mesmo ambiente o filme todo de maneiras visualmente tão criativas que conseguem sempre manter o interesse. Nem mesmo o trabalho porco do projecionista do Unibanco Arteplex que exibiu o filme na janela errada conseguiu atrapalhar as belíssimas composições presentes em "Dama" (o pior é que eu reclamei dessa cagada ainda no começo da sessão e nada foi feito para consertar o problema. Pior do que conseguir relevar o microfone aparecendo em cena o tempo todo é ter que agüentar os espaços vazios no quadro que um erro desses provoca).
Eu acreditei no que estava na tela em cada minuto da projeção. Eu queria participar do ritual. Quem viu o filme sabe do que estou falando. É como religião. A gente acredita porque quer. Conhecendo a obra de Shyamalan não dá para dizer que o paralelo com a fé não tenha sido intencional.
Curioso notar que os dois filmes que mais me impressionaram este ano são tão opostos. Enquanto "A Dama na Água" e´um filme cheio de magia, feito para encantar, "Miami Vice" é o policial mais pé no chão que alguém poderia realizar, com suas armas que soam como armas de verdade e projéteis que provocam em seus alvos o mesmo estrago que provocariam no mundo real. Cada um em lados opostos do espectro. E os dois não conseguiram alcançar um grande público e ser comercialmente bem-sucedidos. Nah. Só pensando em voz alta mesmo. Mas ambos já fizeram o ano valer a pena para o cinema.
É esta a atitude que o cineasta espera de seus espectadores. Este é um conto de fadas para adultos. Mas para apreciá-los é preciso uma certa capacidade de se olhar o mundo com olhos de criança. É preciso querer se encantar.
Como todo conto de fadas, "A Dama na Água" está repleto de elementos que muita gente séria e sem-graça vai chamar de ridículo. O quê?! Uma ninfa na água?! Vai me conta outra... Lobos feitos de grama? Águias gigantes que transportam pessoas em suas patas? Pff...
Vejam bem. A historinha é mais ou menos a seguinte: existem estes seres que vivem na água que sempre guiaram os humanos em suas grandes decisões. São capazes de iluminar e inspirar certas pessoas especia
is. Em um condomínio de apartamentos, Heep encontra um destes seres. Uma narf (Bryce Dallas Howard). Ela está lá para encontrar um destes "receptáculos" e inspirá-lo a dar continuidade ao livro que está escrevendo e que será responsável por uma grande mudança no mundo. É claro que existem também os vilões que querem impedí-la de alcançar seu objetivo. Sim, continuo sem saber escrever sinopses decentes.Engraçado o quanto a história parece épica ao contá-la dessa forma. Certamente, é o filme mais ambicioso do diretor, mas está muito longe de ser algo épico. Inteiramente centrado no condomínio e tem apenas os seus habitantes como personagens de sua história de ninar. Enquanto em seus filmes anteriores ele nos apresentava um universo real e tentava mostra o que de fantástico pode existir à nossa volta sem percebermos, aqui Shyamalan toma um ambiente ultra- realista e aos poucos vai deixando a fantasia tomar conta. No terceiro ato do filme, estamos diante de um mundo quase que inteiramente fantástico, mesmo que ainda ancorado em um condomínio.
Aqueles arquétipos extremamente mundanos que habitam os apartamentos vão deixando-se tomar pelo conto de fadas que está se desenrolando no quintal deles. O público também deveria estar fazendo o mesmo. Para ajudar na transição, Shyamalan colocou um crítico de cinema (Bob Balaban) na história. Tá. Talvez o personagem não fosse tão odiado se ele tivesse uma outra profissão. Mas o cineasta é inteligente demais para tê-lo criado apenas como birra pelas resenhas negativas que seu último filme havia recebido nos EUA. Não. Ele está para representar o que cada um de nós tem de cínico dentro de si. E quando o personagem for finalmente morto, o cínico de nós também deverá ter ido embora. É um salto de fé que o filme exige e, com este personagem, Shyamalan tenta ajudar seu público, da maneira que pode, a conseguir dar o tal pulo.
Além de ser tematicamente mais ambicioso que seus filmes anteriores, além de ter sido capaz de criar todo este universo de faz-de-conta, o cineasta se encontra no auge da forma. Ele consegue filmar o mesmo ambiente o filme todo de maneiras visualmente tão criativas que conseguem sempre manter o interesse. Nem mesmo o trabalho porco do projecionista do Unibanco Arteplex que exibiu o filme na janela errada conseguiu atrapalhar as belíssimas composições presentes em "Dama" (o pior é que eu reclamei dessa cagada ainda no começo da sessão e nada foi feito para consertar o problema. Pior do que conseguir relevar o microfone aparecendo em cena o tempo todo é ter que agüentar os espaços vazios no quadro que um erro desses provoca).
Eu acreditei no que estava na tela em cada minuto da projeção. Eu queria participar do ritual. Quem viu o filme sabe do que estou falando. É como religião. A gente acredita porque quer. Conhecendo a obra de Shyamalan não dá para dizer que o paralelo com a fé não tenha sido intencional.
Curioso notar que os dois filmes que mais me impressionaram este ano são tão opostos. Enquanto "A Dama na Água" e´um filme cheio de magia, feito para encantar, "Miami Vice" é o policial mais pé no chão que alguém poderia realizar, com suas armas que soam como armas de verdade e projéteis que provocam em seus alvos o mesmo estrago que provocariam no mundo real. Cada um em lados opostos do espectro. E os dois não conseguiram alcançar um grande público e ser comercialmente bem-sucedidos. Nah. Só pensando em voz alta mesmo. Mas ambos já fizeram o ano valer a pena para o cinema.




2 Comments:
então qdo dá pra ver o microfone o erro é do projecionista? vivendo e aprendendo..
Já notou nesses monitores que diretores ficam usando em making ofs da vida um retângulo pintado na tela? Então. Aquilo é o enquadramento que deve ser considerado. A janela que o projecionista dev exibir. Mas todo o resto que aparece no monitor está captado na película.
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